Eis a trajetória e os interesses de George W. Bush, Colin Powell, Dick Chenney, Condoleezza Rice e Donald Rumsfeld:
Uma porta
giratória entre o público e o privado. Entre interesses difusos em relação ao
Oriente Médio e lucros, participações e fortunas construídas em negócios com
empresas de petróleo. Assim é visto, por muitos críticos, o chamado gabinete de
guerra do republicano George W. Bush, máquina montada à sombra do pai, o
ex-presidente George Bush (89 – 92). Por outro lado, o time de Bush filho é
visto também como um exemplo bem acabado da América corporativa. De homens de
sucesso preocupados não com a hegemonia e a segurança dos Estados Unidos. Mas, sim com a deles. Eles se
apresentavam como patriotas duros e inquietos, a ponto de estarem dispostos a
repetir uma guerra considerada não terminada há muitos anos. Bush filho e Bush
pai têm muito em comum: vocação para os negócios com petróleo, a preferência
pelo mesmo tipo de assessores bem sucedidos e uma grande sensibilidade em
relação a Saddam Hussein e ao Oriente Médio. Além de ter seguido o pai nos
negócios, Bush filho herdou do progenitor a parte mais influente de seu
governo. O vice-presidente Dick Chenney, e dois dos mais importantes
colaboradores, o secretário de Estado, Colin Powell, e a assessora de Segurança
Nacional, Condoleezza Rice, trabalharam para Bush pai. Assim como o atual
secretário-adjunto de Defesa, Paul D. Wolfowitz, considerado o mais
“linha-dura” da administração de George W. Bush.
Como o pai, George W. Bush empreendeu
grande parte de sua vida empresarial trabalhando em empresas do ramo de
petróleo. No início dos anos 90, foi diretor da Harken Energy, no Texas, terra
natal do óleo e da família Bush nos EUA. Dos seus negócios à época, o mais
polêmico foi quando vendeu, há alguns anos atrás, US$ 848 mil em ações, dois
meses antes de a Harken reportar um inesperado prejuízo.
George W. Bush, assim como Reagan, se
define, a si mesmo, como um “homem com perspectiva ampla e grandes idéias”. Ele
gosta de formulações originais
O petróleo irriga
também a biografia de Chenney. O vice-presidente Dick Chenney, era o secretário
de Defesa de George Bush pai quando os EUA atacaram o Iraque na Guerra do
Golfo, em 1991. Embora tenha ganhado a guerra, Bush pai perdeu a eleição mais à
frente, emaranhada em números ruins na economia doméstica. Imediatamente após a
derrota do chefe, Chenney partiu para a iniciativa privada, na direção de
companhias que tinham interesse no petróleo do Oriente Médio. Em 1995,
tornou-se presidente da Halliburton, a maior companhia do mundo em serviços
relacionados a petróleo, também com sede em Dallas, no Texas. Coincidentemente,
a Halliburton foi uma das empresas que mais se beneficiaram dos contratos para
a reconstrução do Kuwait, libertado do Iraque pala máquina de guerra do então
secretário Chenney. Entre 1996 e 1999, a Halliburton também obteve contratos
diretos do Pentágono que somaram cerca de US$ 1,8 bilhão para a construção de
infra-estrutura dirigida a intervenções americanas no Haiti, na Bósnia e no
Kosovo. Por seu trabalho de cinco anos na Halliburton, Chenney teria acumulado
US$ 39 milhões entre salários e ações.
Condoleezza Rice, Assessora de
Segurança Nacional, teve trajetória semelhante. Embora pertença a Colin Powell
o cargo de secretário de Estado de Bush filho, é Condoleezza quem leva a fama
de ter acesso aos ouvidos do presidente. Depois de Chenney, é a pessoa com mais
influência sobre Bush, ocupando escritório na Casa Branca bastante próximo ao
Salão Oval. Para Bush pai, Condoleezza serviu no mesmo departamento que
comandou com Bush filho, dando conselhos sobre a Rússia (ela fala a língua
fluentemente) e Leste Europeu. No setor petrolífero, trabalhou de 1991 a 1993 na Chevron Oil,
que recentemente batizou, orgulhosamente, com o nome Condoleezza, um de seus
maiores petroleiros.
Também envolvido em negócios lucrativos
e egresso do governo Bush pai, e que foi secretário de Estado de Bush filho,
Colin Powell, saiu com fama de herói da guerra contra o Iraque em 1991. Soldado
profissional por 35 anos até chegar a general de quatro estrelas e comandar as
Forças Armadas americanas, de onde gerenciou a guerra contra os iraquianos,
Powell é considerado um exemplo de “afro-americano” que subiu na vida. Criado
no sul do Bronx, em Nova
York , e filho de imigrantes jamaicanos, Powell revelou sua
saga em 1995 na biografia “My American Journey” (Minha Jornada Americana). O
livro alcançou um sucesso de vendas digno de desempenho de seu autor no mundo
dos negócios. Powell trabalhou durante anos como membro da direção da gigante
de serviços de internet America Online (AOL), onde teria começado a acumular
uma fortuna estimada em US$ 50 milhões em ações de empresas de comunicação e
tecnologia. Além do próprio cargo, Powell teve no governo Bush, seu filho, Michael,
como presidente da Comissão Federal de Comunicação. Embora a controvertida
fusão entre a AOL e a Time Warner tenha sido aprovada em 2000, antes do início
do governo Bush, muitos democratas viram uma influência de Michael Powell em
decisões regulatórias que favoreceram a AOL, recentemente. No campo de batalha,
Powell ajudou a comandar, também, a invasão do Panamá, em 1989, para depor e
prender o ditador Manuel Antônio Noriega, que os próprios EUA haviam ajudado a
subir ao poder.
Também com passagens bem sucedidas no
setor empresarial, Donald Rumsfeld presidiu duas das 500 maiores companhias
listadas pela “Fortune”, a farmacêutica G. D. Searle (a que desenvolveu o vírus
da gripe H1N1 e que vende sua vacina) e a empresa de tecnologia General
Instrument. Com uma fortuna pessoal estimada em quase US $ 150 milhões em
ações e participações em empresas de energia, internet e biotecnologia,
Rumsfeld manteve o padrão do governo. Mas, ironicamente, pesa contra ele o fato
de ter ajudado a criar Saddam Hussein. Trabalhando como assessor especial para
o ex- presidente Ronald Reagan (1981 – 1989) no início dos anos 80, Rumsfeld
visitou pelo menos duas vezes o Iraque do então chamado “presidente” Saddam
Hussein. O objetivo era estreitar relações e dar suporte ao país durante a
guerra Irã-Iraque (1980 – 1988), com americanos a favor de iraquianos. Donald
Rumsfeld sabia dos planos de Saddam para construir armas químicas e biológicas
e nada fez para impedi-lo. Depois de trocar sorrisos e apertos de mãos com Saddam,
os EUA reataram, em 1984, relações diplomáticas com o Iraque, rompidos desde
1967. Ao final da guerra com o Irã, os iraquianos receberam ainda ajuda
financeira e aval dos americanos para conseguir empréstimos. O objetivo
declarado dos EUA no episódio todo foi o de “manter a presença americana no
Oriente Médio e resguardar as reservas de petróleo na região”. Essa foi a Segunda passagem de Rumsfeld pelo
Pentágono. No governo de Gerald Ford (1974 – 1977), assumiu a defesa do país
com a missão de reerguer o moral das tropas após o fracasso no Vietnã.
Conhecido por sua preferência por equipamentos militares caros e sofisticados,
Rumsfeld é um dos maiores incentivadores de projetos como o escudo antimísseis,
conhecido como Guerra nas Estrelas e de controvertidos caças-bombardeiros para
a Força Aérea americana. Entre seus feitos, há ainda o fato de ter ajudado a
acabar com as “limitações infligidas aos EUA” pelo tratado antimísseis
balísticos, conhecido como ABM, de 1972, que previa a redução do arsenal
atômico no mundo. Rumsfeld possui uma visão muito
particular sobre a reforma militar. Desde fevereiro de 2001, ele vinha tentando
tornar as forças armadas mais ágeis, eliminando tanques e artilharia pesada e
aumentando o número de aviões teleguiados (Drones), helicópteros e unidades de
operações especiais. Como a inércia do Pentágono, do Congresso e das empresas
demonstrava ser muito forte, só havia uma solução: O caminho da guerra.
Outro personagem do gabinete de guerra de Bush filho,
saído das hostes do pai, Paul D. Wolfowitz, secretário-adjunto de Defesa, é tão
discreto quanto belicoso em relação a países suspeitos de abrigar terroristas.
Foi um dos únicos a defender públicamente, em 1991, a invasão de Bagdá e
a deposição cabal de Saddam Hussein. Na época, as idéias de Wolfowitz, então
assessor de Chenney no Departamento de Defesa, foram contidas pela ação
diplomática interna do general Colin Powell, então chefe das Forças Armadas.
Powell temia uma ebulição descontrolada nos países árabes vizinhos ao Iraque
caso isso ocorresse. O maior temor não era em relação à retirada de Saddam, mas
à ocupação maciça de tropas norte-americanas em uma das regiões mais sensíveis
do mundo, completamente dominada pelo islamismo.
Do Livro: O Longo Caminho até o 11 de Setembro.
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